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1º de dezembro, quarta-feira
Querido Diário,
Hoje passei a madrugada na delegacia. Tudo começou quando, às 1h30, eu ouvi o alarme do mercado soar pela 1ª vez. Eu tinha acabado de desligar o note e a última cena do último capítulo da 4ª temporada de Dexter
ainda estava na minha cabeça, me chocando. Levantei, fui ao quarto da minha mãe, ela já estava acordada. De vez em quando isso acontecia. Como o alarme tem sensor de movimento, uma borboleta, uma bruxa ou outro inseto maior pode ativar a sirene. Não me preocupei muito então, mas os cachorros latiam furiosamente. Abri as janelas da frente mas não me dei ao trabalho de ir ao portão verificar. Depois de alguns minutos e algumas piscadelas de luz os cachorros cessaram de latir. Religuei o alarme e fui dormir. Mas nem bem fechei os olhos e o alarme gritou de novo, que borboleta chata! Não, os cachorros estavam mais nervosos e mais barulhentos que nunca. Com certeza tinha alguma coisa errada.
_190, emergência!
_Boa noite! Poderia mandar uma viatura circular na minha rua? O alarme disparou duas vezes e estou com medo de ir lá fora verificar.
_Pois não. Endereço?
(...)
Em cinco minutos a polícia estava na minha porta.
_Senhora, poderia vir aqui, por favor?
Medo.
_Olha, arrombaram a porta do seu estabelecimento. Teria alguma outra entrada por dentro? Temos que verificar se o meliante ainda se encontra lá.
Pânico.
Como num filme policial, eles sacaram as armas. O de trás deu cobertura enquanto o outro chutava a porta. O feixe de luz da lanterna ia na frente, vasculhando tudo.
_Tá limpo. Senhora, entre e me diga o que está faltando.
_Fácil, minha gaveta de dinheiro.
Enquanto um policial anotava meus dados e fazia um milhão de perguntas pra fazer a ocorrência, o outro rodava as ruas à procura do fugitivo. Foi quando ouvi no rádio do PM:
_Cabo André, outro arrombamento aqui na Hugo Vocurca, perseguindo suspeito: Homem branco, magro, 1,65m, de bermuda e sem camisa. Está se dirigindo para a ponte de acesso à Ase.
_Positivo, a caminho. Senhora, aguarde aqui a perícia, não mexa em nada. Vamos pegar o cara mau.
E pegaram mesmo. Depois me disseram que ele pulou no rio (ECA!!!) pra tentar fugir, mas a polícia dos cachorros bravos não deixou. O ruim é que tive que ir na delegacia fazer o B.O. e conversar com o delegado. Foi estranho ver um bandido assim tão de perto, sem capacete e sem máscara, olhá-lo nos olhos. Toda vez que ele olhava pra mim eu arrepiava dos pés à cabeça de medo. Apesar disso, fiquei com pena. Ele devia ter um ou dois anos mais que eu, estava sujo, fedendo a esgoto, molhado e com frio. Fiquei me perguntando (e com vontade de perguntar pra ele) se ele era mesmo um cara mau, porque ele tinha feito isso e se estava arrependido. Tive vontade de dizer pra ele não jogar a vida fora desse jeito, que, embora às vezes pareça que a vida não tem solução, ela acaba aparecendo, e que a gente não precisa passar por cima dos outros, magoar, destruir ou fazer mal, para conseguir o que queremos.
Saí da delegacia já eram 8h30. Era hora de começar a trabalhar e eu estava morta, triste e preocupada com o depois. Será que vai ser sempre assim? Será que vou ter que aprender a conviver com o medo? Porque, no final das contas, ele não roubou só a minha caixa de dinheiro (que, aliás, foi parar no fundo do rio) e minha noite de sono, ele roubou a tranqüilidade da minha mãe, roubou a minha ilusão de segurança e minha fé nas pessoas.
OBS: Essa foi a quarta vez que alguém nos roubou. As três primeiras foram assaltos à mão armada e eu estava no caixa. Não dá pra descrever a sensação de impotência e pânico que eu senti. Até hoje fica o medo de que aconteça novamente. Depois que colocamos câmera e alarme, achei que estávamos protegidas, mas é só uma ilusão. Quando alguém quer te tirar alguma coisa, não há nada que segure. Ainda assim, tive que agradecer a Deus, porque, pelo menos dessa vez, não apontaram uma arma na minha cara.